Setor de entretenimento doméstico com Blu-ray se expande no País, mas DVD ainda encontra um amplo público diante da pirataria e dos preços limitadores dos aparelhos de tevê mais modernos Fim da década de 1990. Chegava ao mercado o DVD, uma tecnologia de armazenamento digital que revolucionou o mercado de vídeo doméstico e a indústria cinematográfica. Até então, o recurso utilizado para o acervo de filmes era a fita VHS, sistema que se popularizou a partir da década de 1980. O salto na qualidade da fita para o disco proporcionou uma grande evolução de experiência com vídeos recheados de novos recursos e, principalmente, com qualidade de som e de imagem muito superior. Agora, o mercado passa por uma nova revolução, com os discos Blu-ray (BD), capazes de transformar a sala de casa (com home theater) em um cinema. Para entender essa nova era do entretenimento doméstico, é preciso voltar no tempo. Na última década do século passado, o sucesso mundial proporcionado pelo DVD foi tamanho que os desajeitados VHS foram varridos do mapa rapidamente. Com os avanços tecnológicos proporcionados pelo mercado de televisores, não demorou muito para que o padrão de alta definição fosse explorado. Em 2006, a primeira tentativa de evolução do DVD foi com o HD DVD, mídia com maior espaço de armazenamento e melhor qualidade de reprodução de imagem e de som. Um DVD consegue guardar até 8,5 gigabytes de dados. No HD DVD a capacidade salta para 30 gigabytes. Porém, o DVD de alta definição não conseguiu emplacar e seu declínio ocorreu em 2008, com a entrada no mercado do poderoso Blu-ray. O disco, chamado de BD, do mesmo tamanho físico do DVD ou do HD DVD, é capaz de armazenar até 50 gigabytes, além de ser o único formato atual que suporta rodar filmes em full HD (alta definição máxima, em tradução livre). Isso significa: um DVD consegue reproduzir filmes com resolução de até 720×480 pixels enquanto um Blu-ray alcança até 1920×1080 pixels. Todo o poder do BD só pode ser conferido em TVs de alta definição, sejam elas de plasma, LCD ou LED. Apesar de toda a superioridade técnica, a nova tecnologia ainda não conquistou tantos adeptos no País. A razão está no preço elevado em relação ao DVD. Hoje, um reprodutor de Blu-ray custa, em média, R$ 500 e cerca de R$ 60 por filme no lançamento. Além disso, o Brasil registra pirataria em larga escala de DVDs.
Mercado ilegal
Estimativa da Associação Cinematográfica dos EUA (Motion Picture Association of America, da sigla em inglês), divulgada no início deste ano, revelou que 55% da população urbana brasileira, com idade entre 18 e 64 anos, realizou alguma forma de pirataria de filmes via download, cópias falsificadas ou gravações não autorizadas. Segundo a entidade, as perdas diretas para a economia do País representaram pouco mais de R$ 4 bilhões entre julho de 2009 e o mesmo mês em 2010, considerando apenas a área urbana, que concentra mais de 80% da população do País. Outro dado da associação revela que, neste período, cerca de 456 milhões de filmes pirateados foram obtidos ou assistidos pelos consumidores. Os prejuízos causados pela pirataria são evidentes e dizimam o mercado de vídeo (e afins) doméstico no País, especialmente o setor de locadoras. A diretora executiva da União Brasileira de Vídeo (UBV), Tânia Lima, lastima o fomento ao mercado ilegal. “Há amplos setores da população que consideram a pirataria um crime menor ou nem acreditam estar cometendo uma infração quando compram”, lembra. Sequer tem consciência dos vínculos entre os mercados ilegais de DVDs, de drogas e de armas. Devido ao panorama desfavorável, as locadoras passaram a investir em alternativas para não perder público. Uma delas é o Blu-ray. Um exemplo de aposta no formato é a rede de locadoras 100% Vídeo. “A procura pelo produto cresce a cada ano. Hoje, já representa 28% do faturamento”, revela o diretor de franchising do grupo, Carlos Augusto. O consumidor está cada vez mais exigente em relação à qualidade. Por isso o setor de Blu-ray segue em expansão no País. Dados da UBV registram que foram comercializadas 250 mil unidades do produto em 2009, número multiplicado por sete em 2011, quando fechará o ano com 1,9 milhão de unidades vendidas. “O mercado está extremamente aquecido”, garante Tânia, que acrescenta: “de janeiro a outubro alcançamos 120% a mais de vendas em relação ao mesmo período de 2010”.
Distante do fim
Ainda é cedo para decretar que o DVD cairá em desuso nos próximos anos frente à popularização do Blu-ray. Para
Tânia não haverá a extinção da mídia, mas segmentos de mercado. “O que temos hoje é uma distribuição de conteúdos em formatos diferenciados, mas um, necessariamente, não mata o outro”, explica. Segundo ela, a troca entre as tecnologias será feita gradativamente de acordo com a demanda. “A substituição da mídia será proporcional à evolução da expectativa de quem consome”, completa.
Augusto, da 100% Vídeo, compartilha da mesma visão sobre o convívio dos dois formatos.
“Ainda temos muitos títulos que provavelmente não serão lançados em Blu-ray no Brasil. Uma substituição plena vai demorar, diferentemente do que aconteceu na época da migração do VHS para o DVD”, conclui. Para o arquiteto Juliano Vasconcelos, idealizador do Blog do Jotacê – site voltado para colecionadores de filmes –, o Blu-ray não vai substituir seu predecessor tão cedo.
“O Brasil é um dos únicos países no mundo em que o consumo de DVD ainda cresce, principalmente pelo aumento de renda das Classes C e D”, opina. Segundo Vasconcelos, mesmo com o advento de imagens em alta resolução proporcionadas pelo Blu-ray e das TVs full HD, a maior parte do público está satisfeita com a qualidade oferecida pelo DVD. “Hoje, o Blu-ray é mais voltado para cinéfilos e colecionadores”, opina. Para o arquiteto, outra razão para a manutenção dos DVDs em circulação nos próximos anos são os seriados de tevê. “Muitas séries não serão lançadas em Blu-ray e quem gosta de colecionar ainda vai proporcionar sobrevida ao DVD”, aposta. Hoje, a indústria cinematográfica investe fortemente na tecnologia 3D para atrair o público para as salas de exibição. Os fabricantes de eletroeletrônicos também jogam suas fichas nesse diferencial. Já há no mercado uma série de televisores e reprodutores de Blu-ray com suporte ao 3D. Tânia, da UBV, ressalta que a procura pelo produto vem crescendo a cada mês. “A indústria investirá na tecnologia 3D para que os consumidores tenham uma ótima experiência sem sair de casa”, garante. Há quem imagine que, no futuro, as mídias físicas de filmes e seriados serão eliminadas ou, pelo menos, drasticamente reduzidas frente à propagação de serviços de streaming e locação digital, em que o consumidor pode escolher filmes e seriados pela internet e reproduzi-los em alta definição diretamente em sua TV, computador, tablet ou smartphone. Entretanto, além de contar com um acervo pobre – na maioria dos casos – a experiência fica seriamente comprometida devido à fraca infraestrutura de banda larga fixa e móvel vigente no País. Embora o ganho de qualidade de imagem e som do Blu-ray ante o DVD não seja tão drástico quanto no salto do VHS para o DVD, a tecnologia do disco do raio azul é muito atraente quando provada em seu potencial máximo. Os números do setor mostram que o produto deve continuar ganhando adeptos no Brasil, sobretudo porque os preços de reprodutores e filmes no formato se tornam cada vez mais acessíveis. A era da alta definição veio para ficar, e cada vez atingirá mais gente.
Fonte : Revista C&S 2011/2012/ Edição 18/ Dezembro/Janeiro
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